segunda-feira, 22 de agosto de 2016

BIOGRAFIA DE MARCOS TADEU . JACAREÍ SANTUARIO

Um Pouco Sobre Sua Vida

Marcos Tadeu Teixeira nasceu em Jacareí, no dia 12 de fevereiro de 1977, festa de Nossa Senhora da Escola, de uma família católica. É residente no bairro Campo Grande, próximo aos Montes onde, mais tarde, aconteceriam as Aparições de Nossa Senhora, quando ela se apresentaria, a partir de fevereiro de 1991, como Rainha e Mensageira da Paz.
Era um menino simples, vivaz, calmo. O olhar de Nossa Senhora da Paz pousou sobre aquela criança, sobre este vale de lágrimas, e o Coração de Maria, cheio de misericórdia se abriu, e desceu mais uma vez para chamar os seus filhos para a Conversão e à Paz. Disse Jesus: “Bem-Aventurados os que choram, pois serão consolados!” (Mt 5,5).
Quando pequeno, tinha um problema de sopro no coração. A mãe sempre trabalhou fora para ajudar no  sustento da casa, pois o pai, desde os quatro anos de Marcos, começou a beber, causando grande sofrimento para a família, e levando à perda de muitos dos poucos bens que possuíam. Seu pai era um homem violento, e quando bebia, chegava a bater nele e em sua mãe, sendo preciso que os parentes e vizinhos os acudissem várias vezes para que não acontecesse o pior. Quando tinha de nove para dez anos, o pai o abandonou, com a mãe e o irmão, sozinhos.
Para que não passassem necessidade, sua mãe trabalhou arduamente e, com o tempo, conseguiu construir algumas casas simples, de aluguel. Mesmo assim, nunca foi revoltado, nem teve dificuldades escolares, sendo um dos melhores alunos da escola em que estudou, e sempre tirando boas notas. Sempre foi muito reservado, caseiro e não gostava nunca de ficar andando pela rua. Quase não falava com estranhos, embora gostasse muito de estar com seus priminhos e com seu irmão mais novo, os seus amiguinhos preferidos.
Em 1986 teve sarampo, devido a um surto da doença na cidade, e quase morreu, ficando por quatro dias inconsciente. Uma mancha escura apareceu em um de seus olhos, e os médicos disseram que ficaria totalmente cego em pouco tempo. Porém, foi curado graças as preces de sua mãe à Nossa Senhora das Dores e Nosso Senhor dos Passos. Como se tratasse de gente simples e sem recursos, sua mãe dirigiu-se à Igreja, e diante destas Imagens que lá se encontravam, na dor da iminência de ter seu filho cego, elevou a Deus, com fervor, suas preces, e fez uma promessa. A graça foi alcançada.
Quando Nossa Senhora apareceu pela primeira vez para o ainda menino Marcos Tadeu, ele já havia feito a sua primeira comunhão, em 11 de dezembro de 1988. Preparava-se para receber o Sacramento do Crisma, que viria a se realizar em 22 de novembro de 1992.
Entre 1992 e 1993, fez o curso de Operador de Máquinas no SENAI, em São José dos Campos, que fica à apenas 8 km de Jacareí. Terminou o estudo secundário em 1994, e em 1997 fez o primeiro ano da faculdade de filosofia, deixando-o em dezembro de 1997, por falta de recursos para custear seus estudos.

Esforços e Sofrimentos

Depois que Nossa Senhora lhe apareceu as primeiras vezes, ainda sem ter a certeza de que era ela aPersonagem Celeste, resolveu fazer alguma coisa pela causa do Senhor e das Almas, e tornou-se catequista até fins de 1993, quando teve de deixar tudo por causa das Aparições, em vista das perseguições e proibições do Bispo diocesano.
Em 1994 houve um período de sacrifícios, pedidos a ele pela Santíssima Virgem, a fim de converter os pecadores. Então ele passou por vários problemas de garganta que o levavam a febres altíssimas, tendo que ser internado. Em 1997, houve outro período de sacrifícios pedido pela Virgem Santíssima. Apareceu então um tumor no joelho esquerdo, que devido à sua localização, impediu os movimentos da perna esquerda, e por causa disso, teve que faltar na escola por um período de quarenta dias. Mas não foi reprovado, porque fez as provas e trabalhos de
reposição. Devido às dores lancinantes do joelho que lhe tiravam mesmo o sono, não podia subir nem ao Monte das Aparições, nem ir sozinho à Santa Missa. No dia 7 de setembro de 1997, foi ao Monte levado ao colo por amigos. Estava muito debilitado, porém, foi totalmente curado por Nossa Senhora no dia 9 de setembro de 1997, durante uma Aparição, quando Nossa Senhora lhe mostrou uma multidão de almas subindo ao Céu, consequência daquele sofrimento aceito.
Era a véspera de sua ida a Medjugorje, Lourdes e Fátima, seu sonho, pois sempre quisera visitar os locais onde Nossa Senhora já havia aparecido, o que é plenamente compreensível, porém, pelas condições financeiras da família, julgava impossível, quando, para sua surpresa, abondade divina lhe providenciava esta imensa alegria. Contudo, não sem sofrimento seu, pois as pessoas que o ajudariam na viagem, o tinham inscrito em uma excursão cuja saída estava marcada para aqueles dias, e o problema no joelho o impediria de ir. Mas era a própria Nossa Senhora quem lhe obtivera de Deus aquele favor, e era sua materna vontade que ele fosse.
Durante aquela Aparição, já na iminência da partida, eis o Amor de Nossa Senhora que desde sempre já tudo previra e executava para a maior Glória de Deus e bem do seu filhinho. Qual não foi o espanto dos presentes quando o viram ajoelhar-se diante de Nossa Senhora na Aparição, e depois, sair andando como se nada lhe tivesse acontecido!Não sentiu mais nenhuma dor depois disso, nem ficaram sequelas.
Também foi ajudante de pedreiro, e balconista de depósito de material de construção. É um Homem como os outros, porém, tem umas características que o diferem dos outros, definindo-o como uma pessoa calma, serena e amável, desde que não se sinta explorado e enganado.
De 10 à 25 de setembro de 1997 realizou seu grande sonho que era conhecer Fátima, Lourdes, Medjugorje e outros Santuários Marianos. De 1998 até 1999 parece que teve uma trégua nos sofrimentos físicos, embora os morais, através de perseguições, críticas e injustiças por parte das pessoas continuem sempre martirizando-o.
Foi a esse jovem, simples e desprovido de ostentação, riquezas ou fama que a Virgem Imaculada apareceu, comunicando as riquezas e amor de seu Coração Imaculado, e fazendo-o porta-voz de suas maternais mensagens de salvação para o mundo inteiro.

LILIA MARIA DIZ EM SEU LIVRO 

O Vidente

Para que os fenômenos fossem percebidos como legítimos era preciso que o vidente também o fosse. Dessa forma, simultaneamente a modelagem das aparições foi sendo realizada a modelagem do vidente. Por isso a importância das características e valores do vidente, pois são elas que lhe atribuem raridade.
O vidente tem que ser percebido como dotado de valor e raridade para que possa transferir raridade e valor para seu produto – as suas visões. Desde o início das
manifestações alguns valores do vidente são destacados, como a humildade e a inocência – estes são dois valores importantes nos videntes de Nossa Senhora – sendo considerados atributos que demonstram que a pessoa foi um “escolhida” de Maria, ou seja, é um vidente legítimo.
Como sugere Bourdieu, para que um criador atribua raridade a um produto ele próprio tem de ser percebido como raro. É a raridade do criador que faz a raridade do produto. Ou seja, “produzindo a raridade do produtor que o campo da produção simbólica produz a raridade do produto” (1975:21). Assim, a excepcionalidade do vidente também deve ser produzida para que a aparição seja considerada verídica.
A figura central das aparições, além de Nossa Senhora, é o vidente – pessoa considerada “escolhida” pela Virgem para receber as suas mensagens. Como observado em relação ao Santuário, há também características do vidente que são importantes para a atribuição de legitimidade à aparição e ao próprio vidente. Analisando as falas dos participantes sobre Marcos constatamos que as características que eles ressaltam estão relacionadas à sua personalidade – de pessoa “humilde” e “inocente” – e a sua história de vida – marcada por sacrifícios e provações, e sem pecados. Assim, para o vidente ser considerado legítimo – e não um farsante, mentiroso, charlatão, louco – ele deve convencer o público da veracidade do evento, sendo que a história de sua vida e suas características pessoais constituem parte importante desse processo de legitimação.

Estes elementos – a história do vidente e sua personalidade - também são levados em conta no processo de reconhecimento da Igreja. A história de vida é significativa antes, durante e após os eventos. Antes, porque ele deve demonstrar possuir os valores que levaram a Virgem a “escolher” aquele indivíduo, sendo que a “humildade” e a “inocência” do vidente são importantes. Durante porque o vidente deve provar sua sanidade mental – são visões, e não alucinações – e seu não charlatanismo – pela ausência de interesses financeiros. Após, pelo chamado “testemunho de vida”, ou seja, o vidente deve ter uma postura considerada correta pela Igreja, demonstrando a presença do contato divino em sua pessoa por meio de uma conduta “exemplar”.
Nesse sentido, a aproximação com as aparições modernas é novamente notada, pois as características mencionadas são observadas nos videntes das aparições reconhecidas. Os atributos destacados de Marcos são semelhantes aos destacados nos videntes do final do século XIX e início do século XX. Devemos, pois, analisar cada uma destas características importantes para a excepcionalidade do vidente frente aos devotos e à instituição.
A) A Inocência e a Humildade

A “humildade” e a “inocência” de Marcos Tadeu são duas características constantemente reiteradas pelos participantes. A humildade é demonstrada, para eles, pela sua situação econômica – sendo originário das camadas populares – e pelo fato de não possuir um grau elevado de educação formal, especialmente no momento da primeira aparição de Nossa Senhora.
A “inocência” também está relacionada a pouca educação formal do vidente durante as primeiras manifestações, bem como a sua juventude neste período – ele tinha treze anos em 1991, quando ocorreram as primeiras visões – sendo ambas consideradas como “provas” da sua inocência, ou seja, de sua incapacidade em manipular ou inventar as aparições.

Estas duas características – a inocência e a humildade – são consideradas importantes para a “escolha” feita por Nossa Senhora. Na percepção dos devotos, Marcos era um jovem comum, pobre, humilde, inocente, e justamente por ser tão comum, por possuir as mesmas características que vários outros adolescentes da sua idade – sem possuir nada de “especial”, nada que o colocasse em destaque – ele é escolhido por Maria para ser o intermediário de suas mensagens.
Ou seja, a excepcionalidade do vidente se funda justamente em não ter nada de especial, em ser mais um jovem pobre e sem instrução. No entanto, é um jovem pobre e humilde que aceita a missão de divulgar as mensagens transmitidas pela Virgem, e todas as provações, sacrifícios e perseguições conseqüentes desta tarefa. Assim, apesar das características que o enquadram como “mais um”, sem nada de especial, a perseverança e fortaleza do vidente em cumprir a sua missão são também destacadas.
Os traços de personalidade de Marcos – humildade e inocência, mas acompanhadas da fortaleza e perseverança, fundamentais para que divulgue as mensagens de Maria - nos remetem à outra vidente mariana, já canonizada: Santa Bernadette, a vidente de Lourdes. Segundo Ruth Harris, a simplicidade e a pobreza de Bernadette são essenciais para o seu reconhecimento pelo povo. Em suas palavras “sa simplicité, son regarde direct, son patois faisaient partie integrante du message de notre dame de Lourdes. En la choisissant, la Vierge avait distingué les pauvres et les ignorants.” (2001:195).


Entretanto, apesar da ignorância extrema de Bernadette – considerada prova de sua inocência –, ela era muito forte, tendo passado por várias provações – como xingamentos e desprezo por parte das autoridades locais e dos padres e bispos – mas persistindo em seu relato. Assim, como Bernadette, as virtudes destacadas de Marcos Tadeu estão relacionas a sua humildade e inocência. No entanto, também como a vidente de Lourdes, apesar de humilde, ele é forte, sendo capaz de superar as várias provações para persistir em sua fé.
Pobreza, simplicidade, juventude, inocência – todas estas características estão associadas aos videntes desde as aparições do final do século XIX. Em La Salette, Pontmain, Lourdes, Fátima, Garabandal e Medjugorje os videntes eram crianças ou adolescentes pobres, quase sempre pastores, que estavam em localidades isoladas pastoreando o gado. Os carismáticos presentes nos primeiros tempos das manifestações sabiam disso, bem como Marcos e os participantes do grupo de apoio o sabem atualmente. Assim, quando enfatizam estas características de Marcos Tadeu em seus relatos, destacam valores considerados importantes nos videntes reconhecidos, e que constituem a sua raridade. Ao destacarem os mesmos valores no jovem de Jacareí, estão demonstrando a sua raridade, que justifica o fato dele ter sido “escolhido” por Maria.

Além disso, estes valores dos videntes são muito semelhantes aos apresentados por Nossa Senhora durante a anunciação – momento em que ela é “escolhida” por Deus para gerar o seu filho. Por um lado, ela é retratada como muito jovem neste período, sendo de origem humilde. Por outro lado, esse é o momento em que ela diz sim ao Senhor, aceita o plano divino com todas as suas dores e sofrimentos.
De forma semelhante à Maria, os videntes são jovens e humildes no momento em que dizem sim à aparição, em que aceitam a missão de divulgar a mensagem da Virgem e se empenham em cumpri-la – como o sim de Nossa Senhora, o sim de Marcos também não representa a passividade, mas a atividade, a perseverança e a fortaleza em cumprir os desejos de Nossa Senhora mesmo diante das dificuldades enfrentadas. Além disso, assim como Maria, a jovem humilde escolhida pelo senhor, Marcos é apenas mais um, ele não se destaca, não aparenta ter nada de especial.
Marcos possui, pois, características pessoais semelhantes aos demais “mensageiros de Deus”, desde a mais iminente delas – Nossa Senhora – até os videntes marianos desde o século XIX. Isso permite que os peregrinos reconheçam nele traços de santidade, comprovando a sua raridade, fundamental para a produção da verdade da crença nas suas visões.
B) A vida de provações: a importância da perseverança

As provações pelas quais Marcos Tadeu teve de passar desde a sua infância são sempre destacadas nos depoimentos sobre a sua vida. O seguinte relato, presente no livro “Maria nas aparições de Jacareí” ilustra bastante bem a centralidade dada às dificuldades do vidente ao longo de sua vida. Este relato está no item “Maria escolhe um jovem”, dedicado à descrição de Marcos:

“Quando pequeno tinha um problema de sopro no coração. O pai, desde os quatro anos de Marcos, começou a beber, causando grande sofrimento para a família. Seu pai era um homem violento, e quando bebia chegava a bater nele e em sua mãe. Quando tinha de nove a dez anos o pai o abandonou, com a o irmão, sozinhos. Para que não passassem necessidade sua mãe trabalhou arduamente. Mesmo assim, nunca foi revoltado, nem teve dificuldades escolares, sempre tirando boas notas. Em 1986 teve sarampo e quase morreu, ficando quatro dias inconsciente”. (2000:11)

Podemos notar, nesta primeira parte da descrição da infância de Marcos, que apenas os sofrimentos e dificuldades passados pelo vidente e por sua família são relatados. O tom de provação persiste durante todo o item, valorizando mesmo dores aparentemente simples - como um pequeno problema no joelho. No livro mencionado, há dois momentos que relatam as provações: o primeiro deles menciona as provações passadas pelo jovem na infância, e o segundo momento os sacrifícios dedicados a Jesus, iniciados após as visões. Assim, qualquer pequeno transtorno vivenciado pelo vidente é relatado de forma a valorizá-lo como uma provação ou um sacrifício.
Além dos sofrimentos físicos, os relatos dos participantes também destacam as “perseguições”. Segundo eles, Marcos passou por “perseguições” de diferentes origens: pela diocese de São José dos Campos - que não considera a aparição verídica e submeteu o vidente a exames e entrevistas para constatar a sua sanidade mental -; por parte da população local “que falava mal e rejeitava as aparições. Como outrora em Belém, em que o povo da cidade não quis aceitar o Salvador e a Virgem Santíssima.”

(2000:35) – os moradores de Jacareí jamais aceitaram as manifestações, considerando Marcos como um farsante e interesseiro, em referência aos supostos benefícios financeiros obtidos por ele com as aparições -; por parte da mídia, que no auge dos

Cenáculos publicou matérias que indicavam o charlatanismo de Marcos e supostos benefícios financeiros retirados dos rituais -; por parte de grupos evangélicos, que empreenderam “ataques” ao vidente, por agressões verbais e ameaças físicas.
O relato da vida de Marcos destaca as provações, sacrifícios e perseguições passados por ele desde a sua infância até os dias de hoje. Este relato, elaborado pelos carismáticos envolvidos com as manifestações em seus primeiros anos, foca as dificuldades da vida do vidente, repetindo o padrão de relatos de vida de videntes.
A vida da vidente Bernadette, de Lourdes, é um relato de referência. Ela teve uma infância muito pobre e conturbada, marcada pela fome, e, depois, com as aparições foi humilhada pelos habitantes locais e por alguns representantes do clero, até o momento do reconhecimento, após o qual se recolhe em um convento. Porém, mesmo com o fim das “perseguições” e da pobreza extrema, sua saúde continuou muito frágil, levando-a ao falecimento precoce. A vida dos videntes de Fátima, três pastores, é também relatada como pobre e humilde, sendo repleta de “provações”, tanto que dois deles – Jacinta e Francisco – morrem ainda durante a infância.

Assim, a ênfase nos sofrimentos e na rejeição assemelha a história de vida de Marcos a de outros videntes marianos59. – inclusive pelo destaque a seus problemas de saúde, nunca muito graves, mas intensamente sublinhados, aproximando-os dos males físicos sofridos por outros mensageiros – de forma a legitimar sua veracidade. A ênfase nas provações e sacrifícios torna patente a proximidade entre a vida dos videntes, inclusive de Marcos Tadeu, e a vida de Jesus, pois ambas são marcadas por provações a serem superadas, sacrifícios corporais dedicados a Deus – Jesus passou pela dolorosa via crucis; Marcos sofreu dores físicas, doenças, internações, todas elas interpretadas como sacrifícios pedidos por Deus e realizados de bom grado pelo vidente – e perseguições por parte de diversos setores da população – foi o povo que condenou Jesus a crucificação, além de outras perseguições passadas por ele e os apóstolos durante sua vida, Marcos também destaca as várias perseguições sofridas desde o inicio das aparições.

A ênfase nos sofrimentos físicos de Marcos, em suas doenças, é uma maneira de comprovar a sua “santidade”, por meio da aproximação dos sofrimentos de Jesus e de outros videntes de Nossa Senhora. Assim, o relato da vida de Marcos Tadeu é
construído de forma a atribuir legitimidade e raridade ao vidente pela aproximação entre a sua vida e a vida de Cristo e de outros santos.
 

 

59 Apenas alguns episódios de felicidade e satisfação são narrados, como a sua visita aos Santuários Marianos europeus – Fátima, Lourdes e Medjugorje. Entretanto, mesmo os momentos felizes citados servem para atribuir legitimidade ao vidente, pois se referem à sua peregrinação aos Santuários Marianos de aparição mais visitados na contemporaneidade.

C) O testemunho de vida

A vida seguida pelo vidente após as aparições também é utilizada como evidência da veracidade das aparições. Aliás, o que mais se poderia esperar de uma pessoa que viu e conversou com Nossa Senhora? Que siga uma vida “santa”, “sem pecados”, ou seja, de acordo com a conduta considerada correta pela Instituição Católica, ou instituída pela Virgem. A conduta dos videntes é importante e possui lugar central na análise sobre a veracidade das aparições por parte da Igreja. Além disso, ela serve como fonte de legitimação para estes fenômenos60.

A análise da postura do vidente foi instituída pela Igreja ainda na Idade Média, momento em que ela, segundo Barnay, busca retirar o foco das visões e dos transes e centrar-se nos videntes, nas pessoas que tiveram contato com a Virgem Maria. Eles passam a ser chamados “exempla”, ou seja, os visionários deviam ser pessoas exemplares por meio da imitação da Virgem Maria, assim, eles próprios se tornariam modelos para a cristandade. A Igreja busca exercer o controle sobre as visões por meio do controle dos videntes, transformando-os em exemplos de vida. Essa forma de agir da Igreja Católica em relação aos videntes não sofreu grandes alterações nas aparições modernas e nas aparições contemporâneas, sendo que ainda hoje um dos principais critérios determinados pelo Vaticano para o reconhecimento de uma aparição é a análise do comportamento do vidente. Quanto mais alinhado com a doutrina católica, maiores as possibilidades de reconhecimento, especialmente quando eles se tornam exemplos para os demais cristãos, optando pela vida religiosa, como fizeram as videntes Lucia – vidente de Fátima – e Bernadette – vidente de Lourdes.

No caso de Jacareí, mesmo diante do combate realizado pela diocese às aparições, o vidente busca ter uma vida “exemplar”, afastada do mundo de pecados. Nesse sentido, ele institui regras mais rígidas do que as presentes na Igreja após o Concilio Vaticano II61. O vidente se veste com uma batina marrom, como a dos franciscanos, não freqüenta festas, bares e restaurantes, não namora, não acumula
 
 
 
60  No capítulo sobre o papel da Igreja nas aparições demonstramos como o Pe Laurentin constrói a legitimidade das aparições de Pontmain a partir do testemunho de vida exemplar de seus videntes.
61 Isso tem relação com as críticas ao clero e a Igreja, comuns nas crenças escatológicas e nas concepção do mundo como local do pecado, como analisaremos no capitulo seguinte.

riquezas – fez voto de celibato e de pobreza. Ou seja, segue uma doutrina muito rígida que o afasta do “mundo” considerado pecaminoso.
Entretanto, se os valores do vidente bastavam no início das manifestações, quando ele ainda era uma criança, com o passar do tempo apenas o seu caráter extraordinário não era suficiente, ele devia também ser inserido no campo como agente, adquirindo conhecimento e contato com outras manifestações, de forma a acumular o capital simbólico necessário para manter a sua legitimidade. Marcos, por exemplo, realizou inclusive a peregrinação para os Santuários marianos europeus – Fátima, Lourdes e Medjugorje. O vidente acumula capital simbólico pelo contato e conhecimento sobre as aparições reconhecidas. Além disso, Marcos, com o passar do tempo, consegue se mostrar detentor deste capital de autoridade, sendo que, na segunda década das aparições ele é o detentor exclusivo da palavra durante os Cenáculos, realizando orações, pregações e interpretações das mensagens de Nossa Senhora, sendo capaz de realizar citações sobre outras manifestações e conexões entre as mensagens da Virgem, demonstrando amplo conhecimento sobre elas. Ou seja, neste período ele passa de mero receptáculo das mensagens para intérprete exclusivo delas, analisando-as e estabelecendo conexões entre elas e mensagens da Virgem em outros locais.

Demonstraremos a seguir que as atitudes tomadas por Marcos neste período o afastam do padrão estabelecido para as aparições e para seus videntes, causando a ruptura com importantes membros da rede de manifestações marianas.

4) A Retração das Aparições


Neste item analisaremos a segunda década das aparições, a partir de 2002, momento em que os Cenáculos entram em declínio, diminuindo significativamente o número de participantes. Consideramos que este esvaziamento ocorreu devido a dois fatores: o isolamento do vidente e o seu afastamento do modelo de aparições reconhecidas. Desde o início das manifestações ele não foi aceito pelo bispo da diocese, sendo posteriormente combatido por ele e, em seguida pelos sacerdotes locais. Entretanto, o seu isolamento ocorreu principalmente em relação à comunidade católica de Jacareí e das cidades próximas e a figuras importantes da RCC no Vale do Paraíba – que, na primeira década, constituíram a sua base de apoio.
Quando encerramos nosso trabalho de campo o vidente encontrava-se isolado, apoiado apenas por um pequeno grupo de participantes fixos, responsável pela organização dos Cenáculos, que a cada mês estava mais esvaziado. Neste momento quase não havia “novos” peregrinos, a grande maioria era de participantes fixos, vindos de outras localidades, mas que já conheciam a aparição e a freqüentavam com certa regularidade. Ou seja, a aparição estava estagnada devido à rejeição do vidente na comunidade religiosa local – clero e católicos da região –, e a sua ruptura com o movimento carismático. Analisamos esta teia de relações, que a princípio contribuiu para a legitimidade das manifestações, mas, que também se mostrou central para a estagnação posterior dos rituais.
A perda de apoio está relacionada à perda da autenticidade de suas visões, elas não são mais percebidas como verídicas pelos carismáticos e pela comunidade local; ou seja, eles não têm mais convicção na sacralidade dos fenômenos. Isso ocorre porque Marcos rompe com o padrão das aparições reconhecidas - no que se refere à simbologia e as características de sua personalidade. Ele insere novos elementos e realiza ações que, na percepção dos peregrinos, não condizem com uma aparição verídica e um vidente autêntico.

4.1) A ruptura com os carismáticos

A ruptura entre o vidente e os carismáticos da região ocorre no final do ano de 2001, exatamente uma década após o início dos fenômenos. Vários fatores contribuíram para isso. Marcos já possuía contatos e informações sobre aparições marianas, e começou a questionar o “domínio” dos carismáticos sobre os Cenáculos, argumentando que ele era o vidente, ele era “o escolhido de Nossa Senhora” e, portanto, ele deveria decidir o encaminhamento do ritual.

Paralelamente, os carismáticos o acusavam de “querer aparecer mais do que Nossa Senhora”. Esta frase foi proferida por duas carismáticas, de grupos distintos e em ocasiões diferentes, buscando demonstrar a arrogância do vidente, ou nos termos das informantes, a sua “vontade de aparecer”.

Assim, Marcos, ao tentar tomar a frente dos Cenáculos, inicia uma disputa com os carismáticos, que não concordam com a sua liderança. Ou seja, enquanto ele era uma criança e aceitava submissamente as ações e intervenções realizadas pelos carismáticos, a aparição foi intensamente apoiada, divulgada e promovida pelos membros do movimento. No entanto, quando o vidente começa a questionar estas ações, e especialmente ao buscar ser o centro, o foco dos rituais, passou a ser percebido como arrogante e perdeu seu apoio.

O vidente usa a sua exclusividade como moeda de valorização própria, pois

“ele sabia o que a Virgem queria, os outros não”. Como “escolhido de Maria”, afirma que ela lhe atribui tarefas, que somente podem ser realizadas por ele. A mais importante delas – e também a mais polêmica – é a sua exclusividade na interpretação das mensagens de Nossa Senhora. Essa atitude vinha em resposta à organização do livro “As aparições de Nossa Senhora em Jacareí” pelos carismáticos, no qual a sua participação foi mínima – os membros da RCC contaram a história e deram sua interpretação sobre os fenômenos.

O vidente, ao se proclamar como único intérprete legítimo das mensagens da Virgem em Jacareí – passa a organizar mensalmente um CD, com todas as mensagens transmitidas por Maria e com a sua interpretação delas – retira o poder da RCC em relação às “suas” aparições. Além disso, durante os Cenáculos, ele passa a ser o único a ter acesso à palavra. Ele conduz as orações, tem a visão e, por fim, interpreta a mensagem transmitida por Nossa Senhora.

Diante destas atitudes os carismáticos da região rompem definitivamente com Marcos, parando de freqüentar os Cenáculos e depondo contra ele em seus encontros. Importa destacar que o embate entre os carismáticos e o vidente acontece no momento em que os representantes locais da Igreja intensificam o combate às aparições, fato que também dificulta o apoio da RCC que, por ser um movimento católico, precisa, em certa medida, do aval da Igreja. Ou seja, o incentivo às aparições de Jacareí começava a trazer problemas para os carismáticos junto aos representantes do clero local, devido aos “exageros” do vidente.

4.2) A ruptura com a Igreja

A aceitação ou a rejeição das aparições pela ortodoxia católica é uma questão que perpassa a história desse tipo de evento. O caminho percorrido para o reconhecimento de uma manifestação de Nossa Senhora pela ortodoxia é bastante longo, entre uma pessoa dizer ter visto e escutado Maria e a aceitação deste fato pela Igreja há um grande caminho a ser percorrido, que, na maioria dos casos, culmina com a sua rejeição ou mesmo com a interdição pelos representantes oficiais do catolicismo.
O número de aparições de Nossa Senhora não aceitos pela Igreja é imensamente maior do que os reconhecidos oficialmente, e mesmo que os apenas “tolerados”. Jacareí é mais um exemplo de rejeição. Atualmente a aparição é completamente rejeitada pelos representantes locais da Igreja Católica, mais especificamente pelo bispo de São José dos Campos, responsável pela paróquia em que ocorre a manifestação.
Várias etapas se sucederam até a rejeição: a principio o bispo apenas “não recomendava” a participação dos padres, mas, devido à intensificação da polêmica em torno das atitudes do vidente, o bispo acabou proibindo a presença de sacerdotes no Cenáculo. O pároco de Jacareí acatou sua recomendação e foi ainda mais agressivo, proibindo a participação dos paroquianos, sendo que aqueles que desobedecessem à sua determinação não receberiam a comunhão durante as missas.
Esse é o momento de auge dos debates, que não arrefeceram até o final de meu trabalho de campo, em 2007. É preciso destacar que a proibição estabelecida pelo bispo surtiu efeito sobre o Cenáculo, contribuindo muito para a diminuição do número de participantes nos rituais. Assim, embora não tenha conseguido extinguir o ritual, diminuiu significativamente o número de participantes. Especialmente na diocese de São José dos Campos, a qual pertence Jacareí, a retaliação a essa aparição funcionou, pois atualmente os participantes dos Cenáculos não são provenientes da cidade ou da diocese, mas sim de outras localidades: são os peregrinos analisados no primeiro capítulo.

Segundo a postura determinada pelo Vaticano, uma aparição, para ser rejeitada, deve estar em contradição com elementos da teologia católica. Assim, a postura dos sacerdotes locais está fundamentada nas contradições entre o que é estabelecido pela ortodoxia católica na análise deste tipo de manifestação e a aparição de Jacareí. No capítulo anterior demonstramos que os critérios estabelecidos pelo Vaticano são utilizados de acordo com o interesse dos atores e grupos envolvidos nos eventos. A inserção de “novos” elementos e a postura do vidente contribuem para que a hierarquia percebesse desvios nesta manifestação que a caracterizavam como “falsa” e, portanto, ilegítima.

4.3) Os “exageros” do vidente e o combate do clero

As visões de Marcos Tadeu, com o passar do tempo, foram apresentando elementos considerados inconsistentes, sem conexão com a doutrina católica ou com as aparições reconhecidas de Nossa Senhora. Esses elementos surgiram por volta de 1998, no auge das manifestações. Neste período, Marcos, já um garoto de 20 anos, diz receber também a visita de Jesus e de São José, e até mesmo do Arcanjo Gabriel. Todos transmitem mensagens e “confirmam” as falas de Nossa Senhora. Embora a figura central das aparições ainda seja Maria, outros santos também começam a aparecer e a falar com Marcos, o que desestrutura o padrão consolidado das aparições: a Virgem não aparece mais sozinha durante os Cenáculos, mas acompanhada de Jesus e de São José.
A inserção destes elementos faz crescer a desconfiança da comunidade e do clero local – que já não via com bons olhos os encontros no Monte. A Igreja inicia, então, um combate contra as manifestações. O principal argumento utilizado por ela é a “inconsistência” das visões de Marcos Tadeu. A diocese e algumas paróquias da região se encarregaram de montar cursos e palestras sobre Nossa Senhora e sobre suas aparições, para “esclarecer” os paroquianos sobre esse tipo de fenômeno. Exemplo disso foi um curso realizado na paróquia do Espírito Santo, em São José dos Campos, na quaresma de 1999. Durante três noites foram realizadas palestras sobre Nossa Senhora, dedicadas aos dogmas marianos – enfatizando o que era aceito ou não pela Igreja – e a última delas foi referente às aparições de Nossa Senhora. Nela o palestrante mencionou a cautela e a prudência recomendadas pelo Vaticano, bem como os critérios de avaliação, enfatizando a importância da adequação à doutrina católica e terminou demonstrando as características comuns entre os fenômenos reconhecidos.

Em apenas um momento as aparições de Jacareí foram mencionadas, justamente para lembrar a importância da prudência, recomendada para cada um dos participantes, e da adequação à doutrina. Para a grande maioria dos participantes do curso, que já conhecia as manifestações de Jacareí, ficou evidente no momento em que o palestrante começou a demonstrar as semelhanças entre as aparições de Nossa Senhora, as diferenças em relação às visões de Marcos.
Importa destacar que esta paróquia é um importante centro de referência para os carismáticos locais, sendo que o Pároco é um destacado membro da RCC na cidade e na região, sendo suas missas repletas de carismáticos de toda a cidade e mesmo de cidades vizinhas. Assim, o público das palestras foi constituído, em grande parte, por membros e lideranças da RCC na região. Ao final das palestras ficou clara a intenção dos organizadores – o bispo e o pároco – em alertar os paroquianos a respeito das aparições de Nossa Senhora, especialmente sobre as manifestações de Jacareí, que atraíam multidões devido, em grande parte, ao empenho de membros da RCC. O pároco de Jacareí teve uma postura mais explicita contra as aparições. Enquanto os paroquianos de São José dos Campos estavam sendo formados para o “discernimento”, ou seja, para que pudessem avaliar as aparições – embora com uma forte tendência a renegá-las – os fiéis de Jacareí foram proibidos de freqüentá-las, sendo ameaçados inclusive com a

excomunhão. O pároco de Jacareí foi enfático quanto às “aberrações” das visões de Marcos, especialmente no que se refere às aparições de Santos – principalmente São José – fato que não está presente nas aparições reconhecidas.
O pároco de Jacareí usava argumentos que demonstravam a incompatibilidade entre as aparições de Marcos, a doutrina católica e as aparições reconhecidas, especialmente no que se refere aos “novos” elementos, como as visões de Santos e Anjos. Em suas palavras “isso nunca aconteceu antes, Maria aparecer tantas vezes, e ainda mais junto com Jesus e São José! Em Lourdes não foi assim, nem em Fátima. Tudo naquela aparição (a de Jacareí) demonstra a sua falsidade”.
Dessa forma, os elementos heterodoxos com relação às aparições reconhecidas eram usados para deslegitimar a aparição de Jacareí. Se em um primeiro momento houve a modelagem do fenômeno de acordo com o padrão estabelecido no século XIX para lhe atribuir legitimidade, nesta segunda década são justamente os elementos que demonstram o afastamento com relação ao padrão que são enfatizados pelos sacerdotes para demonstrar a sua falsidade. Isso foi realizado em São José dos Campos, por meio das palestras, e em Jacareí, pelas pregações do pároco62.

A inserção de novos elementos é percebida como heresia. Marcos quebra as regras do jogo, acrescentando elementos que não estavam presentes nas aparições reconhecidas. A sua ruptura com as aparições estabelecidas foi além do que era aceitável, demonstrando uma autonomia que impossibilitava a aceitação de suas visões como legítimas. Sua postura também contribui para o declínio das manifestações. As atitudes e falas de Marcos o afastaram do ideal de humildade e inocência constituintes dos videntes marianos, caracterizando-o, pelo contrário, como arrogante, adjetivo percebido na fala dos carismáticos e dos católicos locais em referência a ele.

4.4) O Vidente e a Comunidade: da inconsistência ao isolamento

No momento em que a diocese e a paróquia começam a “esclarecer” os participantes locais, realizando pregações e palestras contra as aparições de Jacareí, demonstrando a sua incoerência com a doutrina católica, o discurso da comunidade local, especialmente dos católicos, também segue na mesma linha. Ou seja, os moradores embasam sua descrença na incoerência com a doutrina católica, especialmente na diferença em relação às aparições reconhecidas de Nossa Senhora. O depoimento de Beth, católica praticante da paróquia de Jacareí ilustra bem este ponto:
 

62 Segundo o vidente, houve um combate generalizado a suas visões, realizado por vários padres da região e pelo bispo, que falavam contra elas em suas pregações. Não pudemos observar este fato em outras paróquias da região, apenas em Jacareí e em São José dos Campos, mas esta era uma fala recorrente de Marcos durante os Cenáculos, acusando “os padres” de pregarem “contra Nossa Senhora”. De qualquer forma, o combate a elas, por meio da desvinculação dos fenômenos reconhecidos foi a estratégia usada pelo clero local.

“Nós começamos a perceber, a ver que aquilo que acontecia lá (no monte) nunca tinha acontecido antes. Não era nem parecido com as outras aparições de Nossa Senhora. Essa história de Jesus, de São José aparecerem, de falarem com o vidente nunca aconteceu! Então a gente foi percebendo que não era verdade, que nas aparições de Nossa Senhora não era assim.”

A inserção de elementos que fugiam do padrão das aparições reconhecidas causava incômodo nos paroquianos, levando-os a crer na falsidade das visões de Marcos Tadeu. Ou seja, a “novidade”, o fato disso “nunca ter acontecido antes” deslegitimava as aparições, pois as afastava do padrão recorrente.
Dessa forma, o vidente ganha autonomia, ele não é mais apenas o “mensageiro” da Virgem, mas também o intérprete das suas mensagens e o condutor do culto. Ele deixa de ser um instrumento vazio, por meio do qual Maria se manifesta, tornando-se um indivíduo.
Os novos papéis assumidos pelo vidente o afastam do padrão, em que os videntes são percebidos apenas como instrumentos de Maria. Lembramos aqui os casos de Bernadette - que seguiu fielmente as demandas da Instituição, tornando-se freira – sendo constantemente vigiada e nunca falando com o público - e Lúcia, vidente de Fátima, que se tornou carmelita, vivendo reclusa. A partir do momento que o vidente deixa de ser um instrumento vazio, ganhando autonomia e falando por si, a percepção da veracidade de suas visões começa a se romper.

O processo de modelagem impedia a autonomia do vidente - no ritual e em sua personalidade. As “novidades” rituais não são bem recebidas porque demonstram a autonomia do vidente: acrescentando elementos e conduzindo o Cenáculo – afastando-o do modelo. Assim, os participantes começam a percebê-lo como arrogante, e não mais humilde – pois ele não reproduz o padrão de aceitação, mas toma atitudes, circula, interpreta mensagens; ou seja, torna-se um indivíduo, e não a reprodução de uma personalidade padrão.
Além disso, Marcos, ao tentar instituir a “novidade” em suas manifestações

– em relação aos elementos simbólicos e rituais - acaba por romper abruptamente com

 


“Pelo meu filho Marcos e pelas obras que ele empreende em meu nome eu vos
as regras do jogo – em que a adequação ao padrão era central - instituindo novas regras que não são reconhecidas como autênticas pelos participantes. O “novo” não é percebido como verídico. Perde-se, então, a impressão de verdade que havia sido constituída durante a década de noventa através da adequação das aparições de Jacareí ao padrão. Dessa forma, a reciprocidade entre o vidente e os participantes é rompida.

A postura de Marcos também contribui para esse processo de deslegitimaçao das aparições. Além de professar constantemente sua exclusividade no contato com a Virgem e não aceitar “palpites” de ninguém, ele também não atende o público – os peregrinos devem enviar uma carta para marcar uma conversa, pois ele diz estar sempre muito ocupado com as “tarefas que Nossa Senhora lhe atribui”. Além disso, refere-se constantemente, durante suas falas no Cenáculo, à preferência que Maria tem por ele, colocando-se como “um filho especial”.

Essas atitudes e falas do vidente criaram uma antipatia da comunidade local

– inclusive dos católicos não praticantes – em relação a sua figura. A seguinte fala, proferida por ele durante um Cenáculo e atribuída à Virgem, é emblemática de sua

postura:

prometo salvar o Brasil”. Por essa e por falas de teor semelhante, Marcos confere valor e importância a si mesmo, por meio de palavras atribuídas a Nossa Senhora, passando a ser percebido como “aparecido”, “metido”, “arrogante” pelos católicos locais e pelos carismáticos.
Essas características contribuem para a sua deslegitimação enquanto vidente, pois elas são o oposto da humildade, da simplicidade esperada de um mensageiro de Nossa Senhora. Assim, quando os fiéis se deparam com frases como a anterior, em que o vidente faz questão de enfatizar a sua extraordinariedade, ou com o fato de não falar pessoalmente com os peregrinos, a construção da humildade e da simplicidade se desfaz, e eles se percebem diante de uma “celebridade”, que não fala com o público e que se considera extraordinário. O vidente, ele próprio, não permite a troca, considerando-se auto-suficiente.
Ou seja, a troca é rompida. A crença no dom do vidente era atribuída pelos participantes, que identificavam elementos que “provavam” a sua santidade. Entretanto, o vidente rompe com as regras do jogo, afastando-se destes elementos. A convicção na veracidade de suas visões é então quebrada.
Assim, as posturas do vidente, o acréscimo de elementos estranhos ao padrão de aparições marianas e a ruptura nas suas redes de relações sociais - afastando-o de
membros importantes da rede de manifestações - levam à regressão dos Cenáculos, que são constituídos atualmente apenas por um pequeno grupo de participantes fixos.
A participação de pessoas da região é muito rara nos últimos anos, e as peregrinações de fora diminuíram significativamente, devido a sua dificuldade em mobilizar a rede de contatos sem a ajuda da RCC. Marcos, rompendo com os carismáticos, sendo combatido pelos sacerdotes e pela comunidade local, está cada vez mais isolado, e os seus rituais cada vez mais esvaziados.
Dessa maneira, na primeira década das manifestações o apoio da RCC e a modelagem das aparições de acordo com o padrão reconhecido foram centrais para o sucesso dos Cenáculos, já a partir dos anos 2000 a intransigência de Marcos, que se proclama “o” representante de Nossa Senhora, insinuando não precisar de mais ninguém, apenas “Dela”, e o seu afastamento do modelo reconhecido colaboram para que suas conexões se desfaçam e sua legitimidade seja questionada.

4.5) A defesa e o ataque de Marcos

Marcos não apenas insere novos elementos nas suas aparições, mas também inicia um processo de combate aos sacerdotes e ao bispo de São José dos Campos, realizado durante suas pregações nos Cenáculos e nas mensagens atribuídas a Nossa Senhora. Isso acontece como uma defesa do vidente após a rejeição de suas manifestações pelo clero local.
Em suas pregações durante os Cenáculos ele fala da existência de um combate generalizado dos padres contra as aparições, e, consequentemente, contra Nossa Senhora. Por isso ele avisa aos participantes que o clero está corrompido, pois não quer que as pessoas “venham ouvir as mensagens de nossa mãe celeste”. No entanto, segundo ele, apesar dos sacerdotes desaconselharem a participação nos Cenáculos, Maria pede enfaticamente que “seus filhos” compareçam e orem, que não ouçam os “maus conselhos” dos padres.
O ataque ao clero em alguns casos toma dimensões pessoais, e vem por meio de palavras atribuídas a Nossa Senhora. Uma mensagem que teve muita repercussão na diocese foi transmitida no Cenáculo de Novembro de 2005, em que, segundo o vidente, Maria diz que “o bispo Dom Nelson é o filho que ela menos ama”. Vale a pena analisar com mais cuidado este evento.
Ela foi proferida após o bispo ter se manifestado contra as aparições – para o vidente Marcos, em consulta particular, pois ele nunca as mencionou publicamente em
suas pregações63 – fato que ofendeu o vidente. Segundo Marcos, ele foi “escolhido por Nossa Senhora”, ele é “o mensageiro de Maria”, assim, diante da rejeição do clero, do rompimento com a RCC, a única fonte de legitimidade que lhe resta é o contato com Maria, a crença em ser o único a receber as suas mensagens. Por isso Marcos usa as mensagens para combater a rejeição do clero. Entretanto, as mensagens de Maria não podem trazer elementos de discórdia, pois ela é a mãe carinhosa, que ama a todos os seus filhos – como analisaremos no próximo capítulo, a maternidade de Nossa Senhora é uma característica central das aparições – por isso não pode deixar de amar Dom Nelson. Porém, tudo indica que pode amar menos.

Marcos, em seu isolamento, apoiando-se em Nossa Senhora, em suas palavras e mensagens, acaba por criar uma escala de seu amor maternal, na qual ele é o mais amado dos filhos – por seguir as determinações de Maria -, em seguida vem aqueles que participam dos Cenáculos e também cumprem as determinações “dela”, e por último todas as pessoas que não participam, e principalmente aqueles que a combatem, inclusive o clero - os sacerdotes e o bispo, por não reconhecerem as aparições, e, pior, tentarem convencer os católicos a não participar das aparições.

Dessa forma, a única moeda que resta ao vidente é sua capacidade de falar com Maria. Ela, porém, não é suficiente, pois a construção da verdade da crença depende de uma reciprocidade de perspectivas, cuja troca ele rompe de maneira unilateral na forma como usa o seu dom.

5) As aparições contemporâneas: continuidades e inovações


Neste item nos propomos a analisar duas características centrais das aparições de Nossa Senhora em Jacareí: as mensagens transmitidas pela Virgem ao vidente e a presença do Rosário na imagem e nas mensagens de Maria, bem como nas práticas rituais dos Cenáculos. Notamos que estes elementos – as mensagens e o Rosário – estão presentes nas aparições de Nossa Senhora em Jacareí, mas também em outros fenômenos do mesmo tipo, sendo que os participantes os utilizam para estabelecer conexão e continuidade entre as aparições de Maria em diferentes épocas e em diferentes locais. Entretanto, estes dois elementos também ganham novas características nas aparições contemporâneas, ou seja, apesar de indicarem a
 

63 Embora Dom Nélson não tenha se manifestado publicamente contra as aparições, ele nunca as apoiou e instruíu os sacerdotes de sua diocese a fazer o mesmo.

continuidade entre esses fenômenos, estando presentes no padrão de aparições do século XIX, eles se ajustam as características do modo de vida contemporâneo, mas sem perder seus antigos significados. Isso fica mais evidente em relação ao Rosário, como demonstraremos a seguir.

A) As mensagens e segredos

A aparição e a transmissão da mensagem de Nossa Senhora para Marcos Tadeu é o momento central dos Cenáculos. Dado o período extenso das manifestações – elas acontecem desde 1991 – há um grande número de mensagens atribuídas à Virgem de Jacareí. Por exemplo, em 2000 foi publicado um livro com as mensagens transmitidas até aquele ano, que possui 860 páginas. Atualmente são editados CDs anuais com as mensagens de cada visão.

A transmissão de mensagens é um dos aspectos inovadores das aparições do Século XIX, sendo elas as responsáveis pela dimensão pública das manifestações da Virgem a partir deste período. Anteriormente, como demonstrado por Barnay (2000), o contato de Maria com os homens já existia, porém, não havia a transmissão de uma mensagem destinada a toda a humanidade, que deveria atingir um grande número de pessoas, de realizar a conversão. Esta dimensão proselitista do contato de Maria com os homens é estabelecida no século XIX, a partir das três aparições francesas mencionadas no início deste capítulo - Rue du Bac, La Salette e Lourdes – e devido à intervenção da Igreja sobre elas, como demonstrado anteriormente.
Além da dimensão pública das mensagens, também o conteúdo delas possui elementos semelhantes desde este período. Segundo Carlos Steil o modelo das aparições marianas é estruturado a partir Fátima, e também de La Salette64, destacando o papel importante das mensagens e segredos transmitidos por Nossa Senhora. Segundo este autor “A mensagem, geralmente relacionada ao contexto em que vivem os devotos, e os segredos, que apontam para o fim dos tempos e para a afirmação da autoridade da Igreja, se tornam o eixo em torno do qual o evento e o discurso das aparições modernas vão se organizar” (2003:29).
 

64 La Salette foi uma aparição ocorrida na França, no final do século XIX, a duas crianças – Mélanie e Maximin, em que ocorreram a transmissão de mensagens e segredos, em um padrão semelhante à Fátima. Porém, essa aparição não se tornou conhecida como Fátima, não sendo um grande santuário de peregrinação na atualidade. Mais adiante nos deteremos nos fatores que colaboraram para a imensa divulgação de Fátima no Brasil. Interessa lembrar que Fátima era chamada pela imprensa portuguesa da época de “La Salette portuguesa”, tamanha a semelhança entre estas duas manifestações, especialmente no que se refere às mensagens de cunho escatológico. Inclusive, durante o inquérito, foi perguntado se as crianças videntes tinham conhecimento da história acontecida na França, na busca de alguma influência.

A partir de então, o recado da Virgem para a humanidade, ou seja, as mensagens são centrais neste tipo de fenômeno, quase não existindo manifestações em que a crença no contato verbal de Nossa Senhora esteja ausente. Dessa forma, o vidente é um intermediário entre o mundo humano e o mundo divino. Ele é capaz de ver e ouvir as mensagens de Maria, sendo também responsável pela sua divulgação, pois elas têm um caráter público, sendo destinadas para todos os homens.
Em Jacareí, Marcos é considerado um intermediário, um “escolhido pela Virgem”, que tem como obrigação divulgar as mensagens que Maria lhe transmite, destinadas à toda a humanidade. Por isso a construção do Santuário e a realização dos Cenáculos, bem como a impressão de livros e CDs: as palavras de Nossa Senhora devem atingir o maior número possível de pessoas.
A diferença entre esse modelo de aparições estabelecida no século XIX e a aparição de Jacareí refere-se ao número de mensagens. Em La Salette foram três mensagens, uma a cada aparição, em Lourdes foram oito mensagens nas dezoito aparições, e em Fátima sete mensagens em sete aparições. Já em Jacareí o número de aparições é imenso, sendo cada uma delas acompanhada da transmissão de uma mensagem. Desta forma, mesmo se levarmos em conta apenas as mensagens especiais, transmitidas mensalmente, elas ainda são numericamente muito superiores às mensagens atribuídas a Nossa Senhora em Lourdes, Fátima e La Salette.

O grande número de mensagens as torna banais, especialmente as diárias. Os peregrinos não se mostram muito interessados nelas, pois, devido a sua proliferação, elas se tornaram repetitivas, sem nenhuma grande novidade. Por isso o grupo de apoio e o vidente criam mecanismos para tornar algumas mensagens “especiais”. Dois deles podem ser mencionados: as mensagens mensais ocorridas durante o Cenáculo e as mensagens de aniversário das manifestações. Entretanto, mesmo essas mensagens consideradas “especiais” não possuem nada de inovador em relação aos elementos e temas presentes a quinze anos atrás65.

Autores que estudaram aparições contemporâneas já haviam atentado para o fato de que o número de mensagens e de aparições nos fenômenos atuais é muito superior ao das aparições modernas, como Tânia Almeida (2004) – sobre a aparição de Piedade das Gerais. Nesse sentido, ela destaca a formação de um novo padrão de
65 Analisaremos os elementos das mensagens no capítulo seguinte, referente à continuidade simbólica das manifestações.

aparições do qual a aparição de Medjugorje é considerado o modelo, em que o grande número de aparições com transmissão de mensagens prevalece.
A aparição de Jacareí segue esse novo padrão no que se refere ao número de manifestações, entretanto, não podemos deixar de destacar que a presença de elementos semelhantes aos das aparições reconhecidas ainda é muito importante. Ou seja, apesar das aparições contemporâneas apresentarem novas características, a sua adequação às aparições reconhecidas permanece central.
No caso de Jacareí, Maria se comunica com o vidente desde a primeira aparição, mas, a princípio é apenas uma conversa, sem a transmissão de mensagens para a humanidade, que começam a ocorrer apenas dois anos depois, quando a figura se identifica como Nossa Senhora. Então, de forma semelhante ao ocorrido com a história das aparições, as mensagens somente tornam-se públicas em um momento posterior, quando os carismáticos já se apropriaram do fenômeno, indicando novamente a modelagem das aparições de Jacareí ao padrão das aparições modernas, neste caso por meio da atribuição de um caráter proselitista às comunicações de Maria - as mensagens.

Além das mensagens, outro elemento surgido no século XIX são os chamados segredos. Eles também estabelecem a comunicação entre Nossa Senhora e os videntes, mas, ao contrário das mensagens, que devem ser divulgadas para todos os homens, os segredos devem ser mantidos pelo vidente.
Assim, o vidente divulga que a Virgem realizou uma profecia, mas não relata seu conteúdo, pelo contrário, a envolve numa aura de grande mistério, enfatizando a importância deste segredo – que também destaca a sua própria importância como único conhecedor de algo revelado por Nossa Senhora.
A aparição que bem exemplifica a centralidade dos segredos nas aparições modernas, assim como o grande mistério que os envolvem, é a aparição de Fátima, em que, segundo os relatos, a Virgem transmitiu três segredos para os videntes, na forma de profecias. Os videntes apenas poderiam revelar estes segredos após a sua concretização
– devendo compartilhá-los apenas com o Papa. Houve muita especulação a respeito deles, especialmente sobre a sua dimensão escatológica, havendo a constante associação entre os segredos e previsões sobre a proximidade do juízo final, destacando os castigos e características dos tempos finais. Acreditava-se que Nossa Senhora havia demonstrado detalhes dos acontecimentos que precederiam o fim dos tempos que não poderiam ser revelados para os homens.

Este padrão se repete em Jacareí,onde, segundo os relatos, Nossa Senhora fez oito revelações secretas para Marcos Tadeu, que envolvem os castigos do final dos tempos e visões do inferno. Segundo ele, os segredos são assustadores, e, como em Fátima, enfatizam a escatologia66. Não nos deteremos no conteúdo das mensagens e segredos neste momento, mas na forma semelhante como Marcos age diante deles, destacando sua dimensão terrível e escatológica, mas sem relatar seu conteúdo, envolvendo-os em mistério e incitando as especulações a seu respeito, exatamente como em Fátima e também em Garabandal, duas aparições que são referência para a dimensão profética destes fenômenos.
Para explicar a participação dos peregrinos devemos nos deter no conteúdo das mensagens e segredos, que embora não sejam novos, ganham sentidos importantes e relacionados com o agir religioso no mundo contemporâneo.
TEXTO DE LILIA MARIA. 

Marcos Tadeu Hoje



(foto atual)

“Eu te bendigo, Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos. Sim, Pai, eu te bendigo, porque assim foi do teu agrado.” (Mt 11, 25-26).

NOTA 

 













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